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O sagrado vegetal feminino

  • Foto do escritor: Letícia Ravelly
    Letícia Ravelly
  • 8 de mar.
  • 2 min de leitura

Mulher, se a medicina nasce da planta fêmea, por que ainda não somos maioria no cultivo?

Março chega sempre pintado de rosa, de discursos prontos sobre força feminina e de homenagens que muitas vezes não tocam na raiz do problema. Mas eu quero falar de raiz mesmo: de terra, de cultivo e de autonomia.

A medicina da maconha está nas flores. E as flores só existem nas plantas fêmeas. São elas que produzem os fitocanabinoides, os terpenos, a resina que vira óleo, extrato, cuidado, alívio. O que me faz observar que todo um cenário da maconha se sustenta em cima do sagrado feminino, o sagrado vegetal feminino. E, mesmo assim, em 2026, o maior número de cultivadores segue sendo homens. 


Isso não é coincidência. É reflexo de uma estrutura.


Vivemos em um país onde o proibicionismo ainda molda quem pode plantar, quem pode aparecer, quem pode ocupar o quintal sem medo. E quando olhamos para a história da política de drogas no Brasil, marcada pela atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), vemos uma regulamentação que prioriza a indústria e dificulta o acesso popular ao cultivo. Mas para nós, mulheres, o buraco é ainda mais em baixo. 


Não é só sobre a liberdade da planta. É sobre a liberdade dos nossos corpos. Ser jardineira no Brasil significa lidar com o medo da denúncia, da violência policial, da exposição. Mas, para além disso, significa lidar com a insegurança estrutural de sermos mulheres. O medo do vizinho invasivo. Do ex-companheiro violento. Da vulnerabilidade de ter nosso endereço ligado a uma atividade ainda estigmatizada. Nossa segurança física está sempre na equação e isso afasta muitas de nós do cultivo. E te digo que, mesmo eu sendo uma jardineira “legalizada”, o habeas corpus não me protege de abusos e, alguns medos, juiz nenhum consegue me libertar. 


Enquanto isso, o mercado cresce. A indústria se organiza. O discurso medicinal avança. Mas quantas mulheres estão, de fato, com a mão na terra? Se as flores são fêmeas, por que nós não somos maioria nas estufas?

Se a cura brota de um corpo vegetal feminino, por que seguimos terceirizando o cultivo da nossa própria medicina?


Cultivar é um ato político. Para nós, mulheres, é também um ato de reconexão. É entender ciclo, poda, tempo, quando direcionados à autonomia, se tornam libertação.


Mas para que mais mulheres cultivem, precisamos falar de rede de apoio, de segurança digital, de proteção comunitária, de formação técnica. Precisamos criar espaços onde possamos aprender sem sermos silenciadas, testar sem sermos julgadas, errar sem sermos expostas. O feminismo canábico não pode ser só estética. Ele precisa ser prática. Precisa estar na semente germinando na casa de uma mulher que decidiu não depender mais de ninguém para acessar sua própria medicina.


Março não é só buquê enfeitado,Nem promessa em rede social,É flor que nasce na terraE cresce forte no quintal.

Não quero rosa de plástico,Quero a planta medicinal,Com resina nas minhas mãosE autonomia real. Que a fala vire semente,Que a semente vire poder,Porque mulher que planta a curaAprende também a se defender.


Comente o que achou do texto e me conte o que quer ver por aqui, lá no Insta @papaflor_.


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